Que a campanha eleitoral tem sido muito morna não há dúvidas. Não há brigas, não há discussões, não há uma oposição raivosa que baba ao falar o nome do adversário. O que há é o extremo oposto: uma oposição mansinha, quase um cachorrinho de madame que não sai de casa sem sapatinho, coleira de brilhantes e um permanente bem feito. Outro dia conversei com Zé, o tal candidato de oposição.
- E então Zé, como é que está a campanha?
- Bem, muito bem!
- Mas as pesquisas não dizem isso...
- As pesquisas não dizem muita coisa.
Fui forçado a concordar. Ainda vou organizar uma pesquisa pra saber o quanto as pessoas levam a sério as pesquisas. Ou ainda uma pesquisa pra saber quem já foi perguntado por uma pesquisa. Eu, particularmente, nunca tive tal honra.
Continuando a conversa, tentando ver um ar de raiva, ódio, veneno dilacerante, indaguei:
- Andam falando que você mudou de lado, que só fala do Luis na sua campanha...
- Bobagem, é intriga da oposição.
- Mas o seu partido é a oposição!
- Pra você ver, não dá pra confiar nesses partidos, são todos uns neoliberais, querem entregar tudo pro capital internacional. No meu governo vou cuidar do povo, nenhuma empresa pública será privatizada!
- Então o senhor discorda do seu próprio partido?
- Eu? Eu nunca disse isso!
- Como assim, o senhor disse com todas as letras que é contra as privatizações. Se eu não estou enganado quando o seu partido esteve no governo muitas empresas nacionais foram privatizadas!
- Mas eu amo meu partido! Jamais cairia em contradição com os ideais dele!
- Mas o senhor mesmo o criticou!
- Eu? Nunca!
Caro leitor, todo mundo cai em uma ou outra contradiçãozinha um dia, não há nada de errado, quem nunca disse uma coisa e depois, em menos de dois segundos, disse o extremo oposto que atire a primeira pedra. Resolvi extrair alguma declaração bombástica por outros rumos.
- E o governo atual, quais seus erros?
- Nenhum.
- Como nenhum? O senhor não é da oposição?
- Sim, mas uma oposição que vai continuar.
Tentei ser tolerante e compreensivo:
- Sim, sim, continuar o que fizeram quando estiveram no poder. Correto?
- Não, evidente que não! Continuar o que o nosso honrado presidente está fazendo.
- Quer dizer que você gosta dele?
- Claro que gosto, como qualquer outro brasileiro.
- Mas eu pensei que o seu partido fosse contra ele...
- E era.
- E deixou de ser?
- Ora, a voz do povo é a voz de Deus, se o povo gosta dele é porque Deus gosta e se Deus gosta, não somo nós que vamos contrariar o Divino!
Diante de tamanho disparate, tentei argumentar mais uma vez:
- Mas tem alguma coisa que ele fez, alguminha que seja que te faça não gostar dele, ou gostar um pouquinho menos. Vamos lá candidato, fale, por favor, seja sincero!
- Ah, pensando bem, tem sim...
- Então diga!
- Um amigo meu disse num debate que quando ele pega na sua mão é uma coisa maravilhosa...
- E?
- E ele nunca pegou na minha mão...
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